Turismo: a predominância do bem-estar no setor turístico

Quem é do ramo aposta: o turismo de bem-estar logo deixará de ser um luxo para ser um hábito na atualidade

Que tal um dia de viagem que começa um com café da manhã rico em ingredientes da culinária local e depois segue para uma incursão a uma montanha, ao lado de um experiente instrutor de educação física? Ou talvez passar alguns dias surfando em uma praia particular, com meditações regulares na floresta tranquila da Costa Rica? Ou ainda aperfeiçoar seus conhecimentos de ciclismo — é claro, com acupunturistas à espreita caso você precise aliviar a dor pós-pedalada?

Bem-vindo ao mundo do turismo de bem-estar.

O mercado do bem-estar — uma cadeia global de terapias, exercícios, nutrientes e mais — viveu uma ascensão triunfante na última década. As percepções de milhões de pessoas sobre a importância da dieta, do cuidado com o corpo e das práticas saudáveis se transformaram, fortalecendo novos e vibrantes nichos de negócios. E, à medida que o cardápio do bem-estar se expande, os mercados relacionados, do comércio de alimentos à hotelaria, estão começando a oferecer produtos que refletem os valores de consumidores preocupados com corpo e mente.

Marcas que há anos apostam no estilo de vida de bem-estar, como a rede de fitness e serviços Equinox; a SoulCycle, que oferece aulas de ciclismo indoor de alto nível; ou a varejista de roupas esportivas Lululemon, estão fazendo de tudo para acompanhar a corrida e oferecer também a seus consumidores opções de viagens.

O turismo de bem-estar é definido pelo Global Wellness Institute (Instituto Global do Bem-Estar, em tradução livre), uma entidade sem fins lucrativos com sede nos EUA, como “viagens associadas à busca por manter ou melhorar o bem-estar pessoal”.

Não que estes objetivos sejam uma novidade para quem viaja: pense nas peregrinações ao Mar Morto ou em fontes termais na Ásia. O diferencial agora é que, por um lado, o consumidor vê nessas viagens uma extensão de seus valores e estilo de vida. Da parte do mercado, há maior profissionalização e sofisticação dos programas — o que geralmente significa refeições planejadas rigorosamente, exercícios supervisionados e ênfase nos princípios da atenção plena e evolução pessoal.

Isso, claro, tem um preço que chega facilmente aos milhares de dólares — o que faz críticos apontarem para o bem-estar como um privilégio dos mais abastados. Os defensores deste tipo de serviço, no entanto, afirmam oferecer oportunidades de desenvolvimento pessoal e de envolvimento da comunidade.

Mas além das opiniões, vamos aos fatos sobre este mercado.

Extravagância em novas fronteiras

De 2015 a 2017, o mercado global de turismo de bem-estar cresceu de US$ 563 bilhões para US$ 639 bilhões, ou 6,5% ao ano — mais que o dobro do crescimento do turismo em geral, de acordo com o GWI. Até 2022, o instituto prevê que o mercado chegará a US$ 919 bilhões (18% de todo o turismo global), com mais de um bilhão de viagens individuais em todo o mundo.

Anne Dimon, presidente da Wellness Tourism Association (Associação de Turismo de Bem-Estar), acrescenta que, embora qualquer um possa ser um “turista do bem-estar”, o perfil principal é de mulheres com nível superior e idade entre 30 e 60 anos.

Quem for cliente da Equinox, a academia de ginástica americana conhecida por suas luxuosas comodidades e alto valor de matrícula (podendo chegar a mais de US$ 3 mil, cerca de R$ 13 mil), pode desfrutar de uma nova linha de viagens de bem-estar holísticas e luxuosas.

Clientes assim são o que Beth McGroarty, diretora de pesquisa do GWI, descreve como viajantes “primários” do bem-estar — aqueles que viajam com o foco exclusivo em experiências ou destinos centrados no bem-estar.

E embora esse grupo represente apenas 14% dos gastos com este segmento de turismo — os outros 86% vêm de viajantes “secundários”, que incorporam atividades de bem-estar em viagens de negócios ou lazer padrão —, seu custo médio de viagem é muito, muito maior.

“Viajantes (primários) no nível doméstico gastam cerca de 178% a mais do que o viajante médio”, diz McGroarty. “E no nível internacional, eles gastam 53% a mais.”

Para a Equinox, entrar no ramo do turismo significa recriar a extravagância de sua marca em novas fronteiras. E a fórmula tem se mostrado promissora: Leah Howe, diretora sênior da Equinox Explore (a linha de viagens da marca), afirma que quase 100% de seus clientes manifestaram interesse em participar de uma viagem. Várias das seis excursões planejadas para 2020, cada uma limitada entre 12 a 20 pessoas, já se esgotaram.

O pacote mais barato, uma excursão de quatro dias por Florença, começa em US$ 2.350 (cerca de R$ 10,6 mil); o mais caro, por seis dias de caminhada no Marrocos, a partir de US$ 6.250 (R$ 28,2 mil). Aqueles que puderem desembolsar o último valor chegarão no cume do Monte Toubkal ao lado de dois treinadores profissionais, terão jantares com a culinária local e participarão de sessões de ioga e banho a vapor.

O objetivo do Explore, diz Howe, é que os membros do clube voltem para casa se sentindo melhor do que quando saíram. É por causa de sua conexão pré-estabelecida com a marca que eles confiam na Equinox para tomar as rédeas da viagem.

‘Pseudociência’

No entanto, pode-se argumentar que cultivar o bem-estar pode ser simples e relativamente barato.

“Os conceitos básicos de uma boa saúde são inequívocos”, diz Margaret McCartney, clínica geral atuando Glasgow. “Não fumar, tomar cuidado com álcool, ter uma dieta com frutas, vegetais e cereais integrais, exercício, conexões sociais.”

Assim, à medida que a indústria do bem-estar cresce, existe o risco de sermos levados a gastar excessivamente?

Isso depende, opina David Colquhoun, farmacologista da University College London e autor do blog sobre ciência DC’s Improbable Science.

“Ninguém poderia ser contra o bem-estar. Seria como se opor à maternidade ou à torta de maçã”, escreveu ele em 2011. “A única questão que realmente importa é: quanto disso funciona?”

O segmento de bem-estar, não apenas o de turismo, inclui bastante coisa. Há serviços das marcas como SoulCycle ou Equinox que permitem aos membros esquecer das burocracias e focar no relaxamento, cuidado e prazer. Mas esta indústria inclui também empresas criticadas por promover produtos e práticas cientificamente não comprovadas e algumas vezes danosas, como produtos dietéticos “homeopáticos” ou tênis “minimalistas” que aumentam o risco de lesões.

A Goop, marca fundada pela atriz americana Gwyneth Paltrow e que também está entrando no ramo, é frequentemente acusada de promover pseudociência — um programa recente no Netflix sobre a marca e sua criadora, o Goop Lab, foi descrito como um “risco considerável à saúde” por Simon Stevens, chefe-executivo do órgão britânico de saúde National Health Service.

Mesmo sob críticas, a marca está crescendo e também dando seus primeiros passos no turismo. Em janeiro, a Goop anunciou seu cruzeiro de estreia — que percorrerá Espanha, França e Itália em agosto por 11 noites e terá programação com aulas, palestras e encontros com Paltrow em pessoa. O preço inicial é de US$ 2 mil (R$ 9 mil).

Kiki Koroshetz, uma das diretoras da Goop, diz esperar que os clientes levem para casa “uma nova perspectiva, um ciclo mental que possa ser reproduzido regularmente na mente de alguém. Uma ferramenta para gerenciar o estresse, para ter uma conversa difícil, para experimentar mais alegria, para encontrar conexão.”

Encontrando sua turma

Turista no Marrocos; refeições nutritivas e com ingredientes locais são um dos atrativos do turismo de bem-estar

Qualquer que sejam as motivações ou efeitos desse tipo de viagem, representantes da indústria concordam que o senso de comunidade experimentado pelos participantes nestas jornadas é muito importante.

McGroarty diz que reservar um lugar em uma viagem pode ser como um primeiro passo para entrar em uma tribo — afinal, dedicar tempo, recursos e energia em uma viagem de vários dias é um compromisso sério, mesmo para os mais abastados. Também há uma maior propensão a estar cercado por pessoas que compartilham dos mesmos valores e sensibilidades.

“O aspecto comunitário é fundamental”, concorda André Spicer, professor de comportamento organizacional da City University London.

O pesquisador vai além: para ele, jornadas como essas podem atuar como substitutos temporários para as muitas comunidades que foram se dissolvendo nas últimas décadas.

“Isso inclui comunidades locais, religiões, famílias e assim por diante.”

Dimon acredita que, com o tempo, esta tendência possa se consolidar — tornando-se algo não só mais habitual, como acessível, à medida que mais concorrentes entram no mercado.

Três quartos dos adultos americanos relatam estar buscando ativamente maneiras de melhorar sua saúde, lembra Lieberman.

“Você verá esses retiros de bem-estar se tornarem menos novidade e integrados de maneira mais natural às experiências cotidianas”, diz ela. “A acessibilidade é a chave aqui, pois o gerenciamento de sua saúde não deve parecer algo fora de alcance.”

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Selo turista protegido: Ministério do Turismo apresenta programa para o setor turístico

 

O Ministério do Turismo lançou, na sexta-feira (8/5), Dia Nacional do Turismo, o selo “Turista Protegido”, a primeira etapa do programa que criará protocolos de segurança sanitária e de boas práticas para cada um dos segmentos do setor.

O programa busca chancelar as atividades turísticas que assegurarem o cumprimento de, por exemplo, requisitos de higiene e limpeza para prevenção da Covid-19. Inicialmente, estão previstos 16 protocolos de boas práticas, que buscarão ser segmentados de acordo com as especificidades de cada um dos setores atendidos, como meios de hospedagem, agências de viagens, locadoras de veículos, transportadoras, parques temáticos, casas de espetáculo, guias de turismo. A orientação para cada categoria será divulgada nos próximos dias.

A criação do selo de boas práticas em questões associadas à biossegurança é a primeira etapa do Plano de Retomada do Turismo Brasileiro, coordenado pelo MTur, a fim de minimizar os impactos da pandemia e preparar o setor para um retorno gradual às atividades.

O selo estará vinculado ao Cadastro de Prestadores de Serviços Turísticos (Cadastur). Os estabelecimentos precisam estar cientes e orientar os turistas sobre como cumprir as precauções básicas de prevenção ao coronavírus, incluindo os procedimentos básicos de assepsia, monitoramento diário para avaliação da febre, verificação de tosse ou dificuldade em respirar, cumprimento as orientações do Ministério da Saúde para limpeza de superfícies e tratamento de roupa nos estabelecimentos.

Com esta medida, o MTur pretende qualificar o setor turístico com informação sobre as medidas de higiene e limpeza adotadas pelos estabelecimentos e, também, promover o país como um destino turístico protegido e preocupado em oferecer cuidados aos seus visitantes nacionais e internacionais.

“Essa política do Ministério do Turismo está alinhada as melhores práticas globais e é mais uma ação da Pasta de olho na retomada da atividade turística em todo o país. Vamos sair na frente e assegurar que os anseios do turista por uma viagem mais segura seja atendido”, comentou o ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio.

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Covid-19: Ideias sobre o que poderá mudar no turismo

Se existia uma previsão de crescimento do turismo global entre 3 e 4% em 2020, já se pode estimar uma queda entre 20 a 30% nas viagens e uma perda de US$ 300 a 450 bilhões nos gastos dos viajantes internacionais.

Agora é o momento de colocar o bem estar das pessoas em primeiro lugar, não há dúvidas em relação a essa responsabilidade, que é global. No caso da indústria de viagens e turismo, uma das mais impactadas diante da pandemia, sabemos que ela vive um cenário totalmente inédito e sem precedentes; simplesmente as pessoas pararam de se locomover. Dos deslocamentos mais simples, dentro das cidades, até as longas viagens internacionais estão todos em casa se protegendo e evitando a ampliação do contágio. Embora seja muito cedo para qualquer conclusão, e ainda estejamos todos avaliando e tentando entender o que ocorre e quais serão os novos horizontes, já podemos computar um prejuízo enorme no setor, desde pequenas empresas até grandes empreendimentos. Somente as empresas aéreas já projetam uma perda de US$ 252 bilhões em 2020, segundo a IATA são US$ 39 bilhões de bilhetes comprados e não voados que são responsabilidade das companhias.

Se existia uma previsão de crescimento do turismo global entre 3 e 4% em 2020, já se pode estimar uma queda entre 20 a 30% nas viagens e uma perda de US$ 300 a 450 bilhões nos gastos dos viajantes internacionais, segundo a Organização Mundial de Turismo (OMT). Ainda segundo a entidade, podemos levar de 5 a 7 anos para recuperar as perdas de 2020. Somente para termos uma ideia, em 2009, com a crise econômica global, as chegadas de turistas internacionais caíram 4% e durante a SARS, a queda foi somente de 0,4% em 2003. Aqui no Brasil, segundo a Associação Brasileira de Empresas Aéreas (ABEAR), na semana de 23 de março desse ano as empresas associadas já apresentaram uma redução de 75% na demanda nacional e de 95% na internacional em relação a igual período de 2019.

Mesmo sendo uma crise inédita e um panorama nebuloso, penso ser importante trocarmos ideias e projetar futuros cenários; não tentando imaginar, mas buscando tatear quais transformações podem ocorrer em nossa indústria. A única certeza é de que já não somos mais o mesmo negócio, e que, provavelmente as respostas para nossas atuais perguntas ainda estejam em plena mutação. Mas vamos lá, pensar agora e reavaliar continuamente, assim, reflito sobre 5 temas que podemos começar a trocar ideias:

  1. Assim como vivenciamos depois do 11 de setembro, muitas novas medidas de restrições e segurança sanitária devem passar a fazer parte das jornadas de viagens. Sendo a segurança uma preocupação de viajantes e de autoridades de fronteira, todos irão buscar viajar com proteção e evitar possíveis contágios. Tendo a segurança como uma prioridade, o desafio de autoridades e de empresários será garantir que as medidas de proteção sejam tomadas sem prejudicar os deslocamentos, poupando tempo e garantindo o livre trânsito de pessoas;
  2. A depender de como a pandemia evolui em cada país e continente, e ainda como são os diferentes hábitos e formas de viajar em cada país e cultura, podemos presenciar num primeiro momento o predomínio das viagens domésticas. Em seus países as pessoas possuem mais informação, sentem-se mais seguras e assim ficam mais à vontade para fazer deslocamentos a negócios e a lazer. Suponho que a retomada das viagens internacionais irá variar muito de acordo com o país, sua realidade, com a progressiva oferta de voos e a situação de toda a cadeia do setor de viagens e turismo local. Como o turismo é uma atividade que tem mostrado ao longo de décadas uma grande capacidade de recuperação, vamos observar como será o comportamento do consumidor no final de 2020 e nos períodos de alta temporada de cada continente para entender o passo da retomada paulatina;
  3. Necessidade urgente de diálogo entre autoridades públicas e empresários para minimizar impactos e garantir a sobrevivência de empresas, empregos e a recuperação de um setor que é responsável por 1 em cada 10 empregos no planeta. Dependendo do tamanho da empresa, da duração (imprevisível ainda) da crise e das paralizações de viagens, e do segmento de atuação, são necessárias medidas que possam monitorar diariamente o cenário e que, objetivamente, auxiliem e apoiem as empresas para a manutenção de empregos e o enfrentamento da crise. Diversas entidades mundiais e nacionais já divulgaram recomendações e orientações que ajudam a entender os tipos de medidas que podem ser tomadas;
  4. Mudança de hábitos do consumidor é outra tendência que podemos esperar, mesmo que ainda sendo ainda cedo para entender como irá ocorrer. Talvez siga adiante (mas por outros motivos) a ideia de evitar lugares com muitas pessoas, evitar o overtourism; a exigência de atitudes sustentáveis também poderá ser elevada, buscando destinos aonde o respeito ao meio ambiente se traduzirá em mais segurança sanitária em todos os aspectos (meios de hospedagem, alimentação, praias, natureza, respeito à cultura local, dentre outros). Talvez ainda, vivenciemos alteração de períodos de férias, quando poderá ocorrer a busca de viajar em baixa temporada. Infelizmente também poderemos presenciar preconceitos com a procedência de turistas, trazendo um comportamento preconceituoso ou pejorativo por parte de comunidades locais ou até de profissionais. Nem imaginamos ainda as mudanças, mas certamente o cliente será cada vez mais o protagonista de suas decisões, na busca de experiências mais autênticas, porém mais seguras e com uma interação ainda mais engajada em todas as etapas de sua viagem;
  5. Adaptação e imagem das empresas, esses certamente serão aspectos que temos que focar nossa atenção no cenário pós pandemia. As empresas terão que avaliar rapidamente as mudanças e fazer adaptações para garantir sua competitividade, lembrando que mais do que adaptações de gestão serão importantes aquelas que irão entender e atender às necessidades dos clientes. Isso está diretamente relacionado à imagem de sua marca, ela terá que passar ainda mais segurança, transmitir valores reais e demonstrar sua dedicação à respostas rápidas e precisas ao consumidor. Isso vale para empresas e também para destinos, que terão novos desafios de comunicação e marketing. Como será a promoção de destinos no novo cenário em que a segurança terá uma dimensão ainda mais ampla e exigente? O que e como comunicar? Como falar das experiências e realmente fazer o turista sentir-se parte de algo que irá satisfazer novas necessidades ?

O que você acha desses aspectos? Nos ajude a pensar e avaliar o cenário ainda tão difícil e buscar caminhos que possam ajudar a indústria de viagens turismo a superar com força esse atual desafio.

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