
Turismo no Rio de Janeiro – Ondas de ataques nas favelas não deve prejudicar turismo
Reservas não foram canceladas, mas bares tiveram queda de até 60%.
Se ataques persistirem, porém, pode ocorrer reflexo negativo.
A onda de violência no Rio de Janeiro, se controlada, não deverá afetar o turismo e a imagem da cidade a longo prazo, avaliam especialistas ouvidos pelo G1. De imediato, hotéis e agências de viagens da capital fluminense ainda não registraram cancelamentos de reservas ou queda no movimento, notada, contudo, em bares e restaurantes, dizem entidades do setor.
A redução na frequência dos bares e restaurantes chegou a 60% na zona norte na noite de quinta-feira (25), disse o Sindicato de Hotéis, Bares e Restaurantes do Rio (SindRio). Na zona sul, a queda foi de 40%. Segundo a entidade, a redução na quinta foi maior do que a esperada, que era de 30%. Foram ouvidos 30 estabelecimentos associados. Os percentuais haviam sido entre 15% e 20% na quarta (24).
A queda, porém, não havia sido registrada nos hotéis até esta sexta-feira (26), de acordo com o presidente do SindRio, Pedro de Lamare. “Ainda não sentimos cancelamentos na parte de hotelaria. As reservas foram feitas com antecedência”. Para Lamare, talvez possa acontecer de o público que visitaria de imediato a cidade repensar se fará ou não a viagem, mas eventos como o final de ano, férias de verão e carnaval não devem ser prejudicados.
Ataques precisam acabar
A Associação Brasileira de Agências de Viagens do Rio de Janeiro (Abav/RJ) também não havia verificado, até sexta (26), queda na demanda por pacotes turísticos. “Com certeza toda notícia negativa acaba prejudicando a imagem, mas estamos vivendo um período nunca vivido antes. Mais de 90% das reservas para o réveillon estão vendidas. No ano passado, por exemplo, elas aconteceram mais em cima da hora”, disse o presidente da Abav no Rio, Luiz Strauss de Campos.
“Lógico que se isso [a onda de violência] persistir, pode levar a cancelamentos. Mas torcemos para que o governo, unido do jeito que está, faça um trabalho para ‘abaixar a poeira’”, avaliou. Campos afirmou, ainda, que não há como mensurar abalos em relação a reservas que seriam feitas de última hora, já que elas ainda não existiram e não é possível estimar se aconteceria mesmo sem os ataques.
O presidente da Associação Brasileira da Indústria dos Hotéis do Rio de Janeiro (ABIHRJ), Alfredo Lopes disse, em nota, acreditar que datas como réveillon e Carnaval não serão afetadas. “O mercado internacional fez suas reservas com antecedência e provavelmente não teremos cancelamentos imediatos. Já o turista nacional está começando agora a decidir seu destino para essas datas e a situação tende a ser normalizada com a ação enérgica da polícia”, afirmou.
Ele ressaltou, porém, que se a violência continuar a médio e longo prazo, poderá haver impacto negativo nas reservas e a situação pode se estender ao interior do estado. “O viajante fica preocupado de pegar a estrada”.
Trabalho da polícia é fundamental
Para o professor, sociólogo e cientista político da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Paulo Baía, o trabalho da polícia do Rio em parceria com as Forças Armadas é fundamental para levar tranquilidade à população. “É fundamental fazer com que as pessoas vejam que há coisas graves acontecendo, mas que são localizadas”, avaliou.
O especialista não acredita que as cenas de violência possam vir a afetar o turismo. “A população está apoiando [o trabalho da polícia] e vê atendido um dos seus mais antigos clamores. Tudo está acontecendo dentro da ordem, sem a necessidade de instauração de estado de sítio”, avaliou.
Preparação para eventos esportivos
Para Lamare, do SindRio, o trabalho da polícia em parceria com as forças armadas no Rio é uma preparação da cidade em tentativa de melhorar a segurança para eventos como a Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016. “Por um lado, é óbvio que nos preocupamos com os prejuízos associados aos ataques no comércio, mas temos noção do momento histórico que vivemos.”
“Estamos amargando prejuízo, que por enquanto estão aparecendo muito claramente nos bares e restaurantes. A população esta com medo de sair à noite, mas hoje mesmo [sexta-feira (26)], já notamos diminuição nos ataques”, disse. Campos, da Abav, tem a mesma opinião. “O governo tem um projeto estratégico para atender a demanda dos eventos esportivos”, disse.
Alfredo Lopes, da ABIHRJ, disse na nota que, em relação à Copa e às Olimpíadas, “obviamente a situação não é positiva para a cidade, mas são datas distantes e uma política de segurança pública direcionada e com o apoio das forças nacionais reverte e compensa naturalmente os prejuízos causados à imagem”.
Imagens podem beneficiar turismo
O professor João Baptista Ferreira de Mello, coordenador do projeto Roteiros Geográficos do Rio, visitas turísticas pela cidade promovidas pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), é otimista e vê até benefícios que os ataques podem trazer ao turismo internacional. “O Rio pode ser beneficiado, por incrível que pareça. Mesmo quando você fala mal, você faz propaganda”, disse.
“É óbvio que nos preocupamos com os prejuízos no comércio, mas temos noção do momento histórico que vivemos”
Pedro de Lamare - Presidente do SindRio
Segundo Mello, as imagens da violência na cidade acabam despertando a curiosidade das pessoas, que procuram informações na internet e acessam páginas que revelam as belezas da cidade. “Pessoas do mundo inteiro vão ficar curiosas sobre o Rio”, disse. O benefício, porém, é a médio e longo prazo, avaliou.
Roteiros turísticos continuam
O professor Mello, que acompanha turistas em visitas pelos pontos turísticos da cidade, disse que os roteiros não estão sendo cancelados e os pedidos continuam. Neste sábado (27) de manhã, Mello afirmou que haverá roteiros pelos bairros da Glória, Catete e Flamengo.
O professor lembra que é importante frisar que a vida segue normalmente para boa parte da população do Rio. “Há uma parte da cidade que está tendo a vida normal, apesar de ter outra parcela em meio aos problemas. Mas há muita histeria e boatos. As pessoas pensam que o Rio todo está tomado, o que não é verdade”, afirmou.
Mello avalia que os ataques não afetarão a imagem e o turismo na cidade. “Para o turismo, as imagens de violência podem não ser a fotografia mais agradável, mas a vida vai transcorrer e daqui a pouco a cidade vai voltar ao normal.” De acordo com ele, a principal reclamação dos turistas não é em relação à violência da cidade, mas sim sobre a sujeira nas ruas.
Fonte G1
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