Turismo em alta – Dólar baixo e inflação impulsionam viagens de compras ao exterior

O câmbio favorável e o recente aumento da inflação estimulam a procura pelo turismo voltado para compras no exterior. De olho na demanda, agências de viagem têm lançado novos pacotes sob medida para brasileiros que viajam para consumir.

Os lançamentos indicam que Miami ainda é o destino mais visado pelos viajantes pautados pelo consumo.

Maior operadora da América do Sul, a CVC lançou na semana passada um pacote de compras na cidade, assim como a Intravel Turismo, que inaugurou produto similar duas semanas antes.

Os pacotes custam a partir de US$ 1.418 (cerca de R$ 2.280) – incluindo passagens aéreas, cinco noites de hospedagem e transporte terrestre para fazer o circuito dos outlets.

O público-alvo são futuras mães que vão comprar o enxoval dos bebês, noivas que preferem comprar o vestido de casamento no exterior ou pessoas que querem renovar o guarda-roupa ou o acervo de eletrônicos sem ter que pagar o preço de importados no Brasil.

IOF mais alto

No ano passado, os brasileiros gastaram o valor recorde de US$ 16,4 bilhões em bens e serviços no exterior, de acordo com o Banco Central. O valor equivale a cerca de 0,7% do PIB de 2010.

Para tentar conter os gastos no exterior e conter a valorização do real, o governo anunciou, na semana passada, o aumento do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) para compras feitas com cartão de crédito fora do Brasil. A taxa subiu de 2,38% para 6,38%.

Dias após a medida, porém, o dólar alcançou seu valor mais baixo desde a crise em setembro de 2008, sendo cotado a R$ 1,61 na última sexta-feira.

Magda Nassar, vice-presidente da Associação Brasileira das Operadoras de Turismo (Braztoa), avalia que o aumento do IOF não vai segurar o consumo dos viajantes, ainda mais com o real valorizado.

“As pessoas vão procurar alternativas que não onerem a sua viagem, como traveller’s checks, dinheiro ou cartões de débito de viagem”, afirma.

“O acúmulo de impostos no Brasil faz com que tudo aqui seja mais caro até do que na Europa. Com os Estados Unidos, então, não existe nem nível de comparação”, acrescenta Nassar, que também é proprietária de uma empresa que oferece roteiros em Nova York e Orlando.

Grifes

A expectativa de que o crescimento econômico leve mais brasileiros às compras no exterior motivou a visita ao Rio, na semana passada, de representantes de uma rede de lojas da Europa.

Turistas brasileiros já são o quinto maior público do Chic Outlet Shopping, uma rede especializada em grifes de luxo presente em nove cidades europeias.

“Achamos que podemos aumentar ainda mais essa participação”, diz Sarah Bartlett, gerente de relações públicas e comunicação do grupo.

No Brasil, os representantes tiveram reuniões com operadoras de turismo para desenvolver roteiros com paradas em uma ou mais de suas lojas.

Os shoppings a céu aberto ficam nas cercanias de grandes cidades europeias, geralmente a cerca de 40 minutos do centro, e vendem roupas e produtos de grifes como Gucci, Prada, Alexander McQueen, Diane von Furstenberg e Burberry com até 70% de desconto.

“O boom econômico do Brasil abriu possibilidades para muitas pessoas e trouxe um novo olhar para o estilo de vida”, afirma Michael Black, diretor de merchandising da empresa. “Se antes essas grifes só podiam ser vistas da vitrine, hoje elas são acessíveis”, acrescenta.

Déficit

Para a economista Renata Lèbre La Rovere, do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o aumento do consumo no exterior se dá por uma conjunção de fatores: a expansão da classe média, que aumentou a demanda por viagens entre brasileiros; o câmbio atual, que favorece a compra de dólares; e a carga tributária sobre determinados produtos importados, como eletrônicos.

“Quando as pessoas fazem a comparação dos preços, acabam sendo induzidas a comprar onde é mais barato”, afirma a economista, coordenadora de pós-graduação em turismo, economia e gestão da UFRJ.

Já o professor de economia internacional na UFRJ Reinaldo Gonçalves observa que os gastos de brasileiros no exterior aumentam o déficit da conta de transações correntes do Brasil.

Gonçalves lembra que esse déficit foi de US$ 48 bilhões no ano passado. Os US$ 16,4 bilhões gastos em bens e serviços no exterior representam um terço do total.

“Isso é resultado do fato de que o governo brasileiro está deixando pessoas, empresas e bancos se endividarem no exterior”, avalia o economista. “É um erro gravíssimo. Foi o que aconteceu na Grécia e na Irlanda.”

Na opinião do professor da UFRJ, o aumento do consumo no exterior é um agravante no cenário de risco de desindustrialização temido por setores da indústria brasileira.

Para Gonçalves, pior do que uma possível desindustrialização, a transferência do consumo contribui para um fenômeno mais grave: a “reprimarização da economia” – favorecendo investimentos em setores primários como petróleo, mineração e soja, em detrimento de produtos de maior valor agregado.

Fonte: BBC Brasil

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